Para milhões de jogadores ao redor do mundo, as memórias de iniciar uma jornada em Pallet Town nos jogos originais Pokémon Red e Pokémon Green são quase sagradas. Aqueles pixels simples, acompanhados por uma trilha sonora de 8 bits inesquecível, representam o nascimento de um fenômeno cultural. No entanto, um novo experimento tecnológico está colocando essas lembranças à prova, transformando o laboratório do Professor Oak em algo que muitos descreveriam como um cenário de filme de terror psicológico.
Recentemente, uma versão gerada por inteligência artificial da icônica cena de escolha dos iniciais de Pokémon Red e Green surgiu na internet, e o resultado é tudo, menos reconfortante. Criado pelo usuário do X (antigo Twitter) conhecido como Paulius, o vídeo apresenta uma recriação em 3D de Pallet Town explorada sob uma perspectiva de primeira pessoa. O que começa como uma curiosidade tecnológica rapidamente se transforma em uma experiência visualmente náuseante e sombria.
Ao entrar no laboratório do Professor Oak, o espectador é confrontado com o que acontece quando modelos generativos tentam recriar seres orgânicos e carismáticos sem qualquer base de ativos artísticos tradicionais. O projeto foi desenvolvido utilizando o modelo Claude AI, a partir de um comando (prompt) criado por Matt Shumer, um especialista em IA. Segundo Paulius, o aspecto mais impressionante — e talvez o mais assustador — é que a IA gerou cada pixel do vídeo do zero, sem o uso de modelos 3D pré-existentes ou texturas manuais.
A revelação dos três iniciais clássicos é o ponto onde o vídeo atinge seu ápice de desconforto. Cada criatura parece ter sido filtrada por uma lógica onírica e distorcida. O Bulbasaur, embora seja o menos ofensivo visualmente, apresenta olhos vermelhos e uma expressão inexpressiva que retira toda a simpatia do personagem original. No entanto, o verdadeiro horror começa com o Charmander.
Charmander, meu Pokémon favorito de todos os tempos, parece que foi passado por um moedor de carne e reformado por uma criança com duas mãos esquerdas.
A descrição acima, feita pelo jornalista Jordan Gerblick da GamesRadar, ecoa o sentimento de muitos fãs ao verem a criatura avermelhada e deformada. Para encerrar o trio, o Squirtle aparece de forma quase ameaçadora, com um sorriso que parece um portal para o vazio e movimentos espasmódicos que desafiam a anatomia natural. O próprio criador do vídeo, Paulius, admitiu que a cena dos iniciais é profundamente perturbadora, descrevendo o Squirtle como “eternamente assombrado”.
A criação desse vídeo levanta uma discussão necessária sobre o papel da IA na indústria dos games e na preservação de propriedades intelectuais. Embora a capacidade técnica de gerar ambientes 3D complexos apenas com texto seja fascinante do ponto de vista da engenharia de software, o resultado estético frequentemente falha em capturar a “alma” que artistas humanos infundem em seus designs. O fenômeno do “vale da estranheza” (uncanny valley) é evidente aqui: quanto mais a IA tenta se aproximar da tridimensionalidade realista sem a supervisão de um diretor de arte, mais o resultado final parece repulsivo ao olho humano.
Este caso não é isolado. Recentemente, vimos reações negativas semelhantes em projetos envolvendo Sonic e até sugestões de remakes de Final Fantasy VI feitos por IA. A grande questão é se essas ferramentas serão usadas apenas para prototipagem rápida ou se corremos o risco de ver o mercado inundado por conteúdos que a comunidade gamer já começou a rotular como “slop” (conteúdo de baixa qualidade gerado em massa). No caso de Pokémon, a identidade visual da Nintendo e da Game Freak é baseada em linhas limpas e expressividade, algo que o modelo Claude AI ainda não conseguiu emular com sucesso.
Apesar das críticas e do desconforto gerado, o projeto de Paulius continua a acumular visualizações, servindo como um lembrete do poder viral da curiosidade mórbida. Há quem defenda que, com o refinamento dos prompts e dos modelos de linguagem, em breve teremos versões que não causem pesadelos, mas por enquanto, a recepção majoritária é de rejeição. A ideia de que essas versões “assombradas” de Bulbasaur e companhia poderiam se tornar jogáveis no futuro é um pensamento que assusta tanto quanto as próprias imagens.
No fim das contas, a experiência serve para valorizar ainda mais o trabalho dos designers originais que, com limitações técnicas severas no Game Boy, conseguiram criar ícones que duram décadas. Enquanto a tecnologia de inteligência artificial não for capaz de compreender a empatia e o design de personagens, o laboratório do Professor Oak continuará sendo melhor apreciado em sua forma clássica de 8 bits ou nos remakes oficiais da franquia.
Acompanhe mais novidades sobre tecnologia, cinema e games seguindo nossas redes sociais: Instagram, Facebook e X/Twitter.



