Review – Blades of Fire transforma armas descartáveis em seu maior acerto

Blades of Fire pega uma das mecânicas mais odiadas dos jogos de ação a durabilidade de armas e a usa para obrigar o jogador a experimentar, aprender e se adaptar. O resultado é uma aventura brutal, inventiva e muito mais divertida do que o título genérico sugere.

Em jogos como Dark Souls e Elden Ring, encontrar uma arma nova costuma gerar uma reação previsível: conferir os atributos, comparar com a espada favorita e, na maioria dos casos, voltar imediatamente ao equipamento de sempre.

Blades of Fire não permite esse conforto.

Toda arma forjada eventualmente quebra. Isso pode soar como um pesadelo para muitos jogadores, especialmente depois de anos de discussões sobre durabilidade em jogos de aventura. Mas a decisão da MercurySteam não existe apenas para punir: ela é a chave de todo o sistema de combate.

Quando sua arma favorita se parte, você não tem escolha a não ser testar outra. Uma espada longa dá lugar a machados, que dão lugar a lanças, sabres, adagas, alabardas e armas que talvez nunca fossem usadas em um soulslike convencional. Aos poucos, a obrigação vira descoberta.

Blades of Fire é um jogo de fantasia sombria com elementos de soulslike e metroidvania, mas não tenta apenas repetir fórmulas conhecidas. Sua melhor ideia é justamente forçar o jogador a sair da zona de conforto — às vezes de maneira irritante, quase sempre de maneira recompensadora.

Uma vingança sombria com uma energia surpreendentemente leve

O protagonista é Aran de Lira, um ferreiro que vive isolado na floresta. Sua paz termina quando um velho amigo aparece e é morto diante dele. A partir daí, Aran parte em busca de vingança contra uma rainha tirânica responsável pela morte do amigo e pela desgraça que domina o reino.

A premissa é bastante tradicional. O que diferencia a narrativa é o tom.

Apesar de sangue, monstros grotescos, decapitações e cenários que parecem saídos de um pesadelo medieval, Blades of Fire não se leva a sério o tempo inteiro. O jogo tem uma energia pulp, quase aventureira, que lembra uma mistura de fantasia brutal com o espírito de exploração de Indiana Jones.

Aran é acompanhado por Adso, um personagem pacifista que cataloga as criaturas enfrentadas ao longo da jornada. Enquanto monstros tentam arrancar a cabeça do protagonista, Adso pode comentar que desenhou uma ilustração do inimigo. Aran responde com entusiasmo, como se não estivesse ocupado demais tentando sobreviver.

A dupla funciona muito bem. Aran é direto e caloroso, enquanto Adso traz curiosidade e leveza para uma aventura que poderia facilmente ser soturna demais.

O problema é que alguns diálogos de Adso se repetem além da conta. Em momentos específicos, suas falas constantes acabam cansando, especialmente quando o jogador precisa se concentrar em plataformas perigosas ou combates tensos.

Criaturas roubam a cena

Os cenários de Blades of Fire são visualmente bonitos, mas familiares: florestas, castelos, desertos e regiões geladas. O jogo não reinventa esses locais, embora entregue bons detalhes e uma atmosfera forte.

A criatividade aparece principalmente nas criaturas.

Há um mestre ferreiro que vive dentro de uma formiga voadora gigante, um rei-ogro roxo que parece simpático demais para ser confiável e pequenos inimigos que usam suas espadas como bastões de pogo para escapar dos ataques. Outros guerreiros chegam a cortar a própria garganta para se transformar em ameaças giratórias nos últimos instantes de vida.

São ideias estranhas, violentas e criativas. Blades of Fire tem prazer em surpreender o jogador com monstros que não parecem apenas variações de soldados, esqueletos ou bestas já conhecidas.

Essa inventividade também é importante para a progressão. Ao derrotar uma quantidade específica de certos inimigos, o jogador desbloqueia a possibilidade de forjar a arma usada por eles. Uma caverna cheia de criaturas perigosas pode ser um sofrimento, mas a recompensa por sobreviver pode ser o projeto de uma nova arma poderosa.

Isso cria um motivo concreto para enfrentar inimigos e explorar áreas que poderiam ser evitadas.

Forjar não é enfeite: é sobrevivência

O sistema de forja é a base do jogo. Ao criar uma arma, é necessário escolher materiais, como madeira e metal, que alteram atributos importantes:

Dano, Durabilidade, Custo de stamina, Capacidade de bloqueio, Eficiência contra determinados inimigos

Como não existem escudos, a arma também pode ser usada para bloquear golpes. Porém, sua resistência depende dos materiais e da construção escolhida. Usar componentes raros para fabricar uma arma extremamente forte pode parecer uma boa ideia, até chegar o momento de repará-la e perceber que os recursos necessários estão escassos.

Esse sistema exige planejamento. Uma arma poderosa nem sempre é a melhor escolha se sua manutenção for cara demais. Da mesma forma, certas armas funcionam muito melhor contra inimigos específicos.

A interface deixa isso claro ao indicar se o adversário é vulnerável ao tipo de arma equipado, se bloqueará boa parte do dano ou se o jogador está tentando acertá-lo com algo tão eficiente quanto um jornal molhado.

É uma abordagem inteligente. Em vez de deixar o jogador encontrar uma arma excelente no começo e ignorar todo o resto do arsenal, Blades of Fire cria motivos mecânicos para mudar de estratégia constantemente.

Combate exige precisão, coragem e boas escolhas

A variedade de armas não teria tanto valor se o combate fosse fraco. Felizmente, essa é uma das melhores partes da experiência.

Cada arma tem ritmo, alcance e peso próprios. Escolher a direção do golpe também importa bastante, assim como decidir entre cortes e estocadas. Atacar de cima, pelos lados ou em posições diferentes pode ser decisivo para atingir pontos vulneráveis e lidar com inimigos blindados.

A esquiva possui duas variações: Um toque desloca Aran de forma rápida e curta; Dois toques executam uma rolada mais evasiva.

A rolada ajuda a fugir de perigos maiores, mas consome um tempo precioso que poderia ser usado para contra-atacar. Esse detalhe cria uma boa tensão entre jogar de forma segura e assumir riscos.

O bloqueio é limitado, mas a defesa perfeita continua extremamente satisfatória. A MercurySteam já mostrou que entende de parries em Metroid Dread, e essa experiência aparece aqui. Aparar um golpe no momento certo e responder com uma sequência forte é sempre gratificante.

Mas os ataques pesados são o verdadeiro espetáculo.

Carregar um golpe pode demorar, especialmente com armas pesadas, e o ataque pode ser interrompido antes de ser concluído. Quando acerta, porém, o impacto é enorme. O som, a animação e o dano transmitido transformam cada golpe carregado em um momento de pura satisfação.

Machados rápidos permitem encaixar vários ataques pesados em sequência. Espadas grandes oferecem golpes lentos, mas devastadores. Não existe uma arma universalmente superior, e essa é exatamente a intenção.

Exploração tem o DNA de Metroidvania da MercurySteam

Blades of Fire recompensa muito bem quem explora. Não há sistema de níveis tradicional; derrotar inimigos rende principalmente materiais de fabricação. A evolução do personagem vem de itens escondidos, melhorias de vida e stamina, novos projetos de armas e segredos espalhados pelos mapas.

A experiência da MercurySteam com Metroidvanias aparece na forma como os cenários escondem caminhos e recompensas. O jogo incentiva observar o ambiente, testar rotas estranhas e procurar locais que não parecem acessíveis à primeira vista.

A morte é relativamente pouco punitiva. Quando Aran morre, sua arma equipada fica no local da derrota. É possível voltar e recuperá-la depois, e o item abandonado pode até servir como um marcador improvisado no mapa.

O dano de queda, porém, é mais severo do que deveria. Considerando que vários segredos exigem se arriscar em penhascos ou caminhos pouco óbvios, morrer ao errar um salto pode ser irritante.

Um fantasma muito falante quase estraga uma área inteira

O jogo tem poucos problemas sérios de tom, mas um deles se destaca de maneira negativa: uma seção acompanhada por um fantasma que repete as mesmas piadas incessantemente.

Em uma aventura que normalmente equilibra bem horror, aventura e humor, esse personagem se torna cansativo rápido. A repetição de falas tira força da exploração e transforma uma área potencialmente interessante em um teste de paciência.

É uma pena, porque Blades of Fire funciona muito bem quando deixa o humor surgir naturalmente entre Aran e Adso ou em personagens estranhos encontrados durante a campanha. Um pequeno esqueleto que acompanha o jogador em determinado capítulo, por exemplo, é muito mais carismático — e, felizmente, não fala demais.

Vale a pena?

Blades of Fire começa com uma proposta que pode afastar muita gente: armas quebram, materiais são consumidos e não existe a segurança de permanecer para sempre com sua build favorita.

Mas essa decisão é justamente o que torna o jogo especial.

A durabilidade obriga o jogador a dominar armas diferentes, estudar inimigos e entender a forja. O sistema poderia ser apenas incômodo, mas a MercurySteam construiu um combate bom o bastante para que experimentar novas ferramentas seja divertido.

A campanha tem uma história de vingança convencional, alguns diálogos repetitivos e uma área prejudicada por um NPC excessivamente falante. Ainda assim, a dupla de protagonistas é ótima, os inimigos são criativos, a exploração é recompensadora e cada arma possui uma personalidade própria.

Blades of Fire é uma aventura de fantasia brutal, sangrenta e criativa. Mais importante: é um soulslike que não apenas pede que você encontre armas novas ele faz você realmente usá-las.

9Ótimo
Veredito

Ótimo

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