Em 2020, Call of the Sea surpreendeu ao misturar puzzles, uma direção de arte vibrante e horror cósmico em uma aventura relativamente compacta. Seu maior trunfo era Norah, uma protagonista carismática que guiava o jogador por uma ilha tropical cheia de mistérios, ruínas e descobertas inquietantes.
Seis anos depois, Call of the Elder Gods retorna a esse universo, mas não tenta apenas repetir a mesma estrutura. A sequência amplia o mundo, apresenta dois novos protagonistas e leva a investigação para diferentes lugares do planeta. O resultado é uma aventura mais grandiosa, cheia de sociedades secretas, experimentos paranormais e mitologia lovecraftiana.
A mudança de escala funciona bem em muitos momentos, especialmente graças aos enigmas variados e ao ótimo sistema de dicas. Porém, há uma pequena perda de foco em comparação com a história mais concentrada do jogo original.
Dois protagonistas, uma herança inquietante
Call of the Elder Gods se passa muitos anos depois dos eventos de Call of the Sea e alterna entre dois personagens.
A primeira é Evie, uma jovem que começa a ter sonhos ligados a uma civilização antiga e sofre períodos de perda de memória. O segundo é Harry, marido de Norah, protagonista do jogo anterior.
A ligação entre os dois personagens é construída aos poucos, conectando o novo mistério aos acontecimentos do primeiro jogo. Harry também precisa lidar com a ausência de Norah, que morreu antes do início da campanha. Mesmo assim, ela continua presente como narradora, comentando eventos com seu humor e sua perspectiva mais madura.
Essa escolha funciona muito bem. Norah não rouba o protagonismo dos novos personagens, mas acrescenta continuidade emocional à história. Sua presença ajuda a reforçar que Call of the Elder Gods não é apenas uma nova aventura no mesmo universo: é uma continuação direta das consequências deixadas por Call of the Sea.
Harry tem uma personalidade mais rabugenta e experiente, enquanto Evie traz energia e curiosidade para a dupla. A diferença entre os dois torna as trocas interessantes e evita que a alternância de protagonistas pareça apenas uma troca estética.
Uma aventura de escopo maior e clima de Indiana Jones
Enquanto o primeiro jogo se concentrava em uma única ilha tropical, Call of the Elder Gods viaja por diferentes regiões do mundo. A estrutura lembra aventuras arqueológicas clássicas, com mudanças constantes de cenário, mapas de deslocamento e uma sensação de investigação global.
Em alguns momentos, o jogo evoca o espírito de Indiana Jones, principalmente pela combinação de locais históricos, sociedades ocultas e descobertas antigas que não deveriam ser perturbadas. A história não deixa de lado o horror cósmico, mas o enquadra em uma aventura mais ampla e mais movimentada.
Essa expansão dá variedade à jornada. Há ambientes internos e externos muito diferentes entre si, cada um com seus próprios objetos, pistas e desafios. Por outro lado, o escopo maior também reduz um pouco a sensação de unidade que fazia o primeiro jogo funcionar tão bem.
Call of the Sea era mais contido, e a ilha funcionava quase como uma personagem. Call of the Elder Gods é mais ambicioso, mas por vezes parece menos coeso. Ainda assim, a história compensa essa diferença com reviravoltas interessantes e boas conexões com o jogo anterior.
Puzzles criativos e integrados ao cenário
Os puzzles continuam sendo o centro da experiência, e Call of the Elder Gods se destaca pela variedade.
O jogador encontra documentos, anotações, símbolos, objetos históricos e pistas relacionadas a sociedades secretas, experiências sobrenaturais e mitologia cósmica. Esses elementos servem como base para enigmas que envolvem diferentes tipos de raciocínio.
Entre os desafios, há atividades como:
Organizar objetos em sequências específicas; Decifrar códigos; Interpretar latim; Resolver enigmas musicais; Manipular interruptores e mecanismos; Conectar informações encontradas em documentos e cenários.
O melhor aspecto é que os puzzles não parecem inseridos de forma artificial. Eles normalmente existem por um motivo dentro do ambiente: ativar uma torre de rádio, abrir uma passagem, acessar uma sala proibida ou restaurar algum mecanismo antigo.
Raramente o jogo repete a mesma ideia. Quando isso acontece, costuma ser porque o desafio faz parte de um puzzle maior, composto por várias etapas. Essa variedade mantém a experiência fresca e faz cada capítulo apresentar algum tipo de novidade.
Um ótimo sistema de dicas evita bloqueios frustrantes
Call of the Elder Gods entende que nem todos os jogadores têm paciência para passar horas presos em um único enigma. Por isso, o sistema de dicas é muito bem construído.
A primeira solicitação oferece apenas uma orientação geral. Uma segunda dica aponta com mais clareza qual deve ser o próximo passo. Se o jogador continuar pedindo ajuda, o jogo eventualmente fornece uma solução detalhada, acompanhada de uma captura de tela anotada.
É um sistema excelente porque respeita diferentes tipos de público. Quem quer resolver tudo sozinho pode ignorá-lo completamente. Quem deseja apenas um empurrão recebe uma pista leve. E quem está realmente travado pode avançar sem abandonar a campanha ou procurar uma solução fora do jogo.
Alguns dos maiores puzzles, no entanto, são tão complexos que nem mesmo a resposta completa parece fácil de aplicar. Certos enigmas envolvem várias etapas e elementos espalhados pelo cenário, o que pode causar confusão mesmo quando o jogador já sabe, em teoria, o que precisa fazer.
Esse é um dos poucos pontos em que a ambição da sequência pesa. A maioria dos desafios é excelente, mas alguns podem ser grandes demais para o próprio sistema de dicas resumir com clareza.
Uma apresentação bonita e muito bem interpretada
A direção de arte continua sendo um dos maiores destaques. Call of the Elder Gods mantém o estilo inspirado em capas antigas de livros de aventura, com cores marcantes, cenários expressivos e uma aparência que combina perfeitamente com arqueologia, mistério e horror sobrenatural.
A maior variedade de locais permite que a equipe explore mais possibilidades visuais. Cada ambiente tem personalidade própria, e a mudança constante de regiões impede que o jogo fique visualmente repetitivo.
No Nintendo Switch 2, o desempenho se mantém estável. Não há problemas perceptíveis de performance, o que faz da versão portátil uma ótima escolha para quem gosta de resolver puzzles em sessões menores.
O áudio também é muito competente. A trilha sonora acompanha bem os momentos de tensão e descoberta, embora não seja tão memorável quanto outros elementos do jogo. As dublagens, por outro lado, são excelentes.
Harry transmite muito bem seu jeito mais cansado e irritadiço. Evie possui a energia certa para equilibrar a dupla. Norah, mesmo ausente fisicamente, soa mais experiente e sábia do que antes.
Vale a pena?
Call of the Elder Gods é uma sequência muito boa. A história amplia o universo de Call of the Sea de maneira significativa, apresenta personagens interessantes e preserva o mistério cósmico que fez o jogo original se destacar.
Os puzzles são variados, inteligentes e geralmente bem integrados aos ambientes. O sistema de dicas é um dos melhores recursos do jogo, pois permite que jogadores de diferentes níveis de experiência avancem sem transformar a campanha em uma busca constante por guias externos.
A escala maior tem um custo: a narrativa não é tão compacta quanto a do primeiro jogo, e alguns enigmas podem se tornar excessivamente grandes ou confusos. Mesmo assim, o resultado é uma aventura bonita, acessível e cheia de boas ideias.
Para fãs de puzzles, é uma recomendação obrigatória. Para quem normalmente evita o gênero por medo de ficar preso, o sistema de ajuda torna Call of the Elder Gods uma excelente porta de entrada.



