Review – Fresh Tracks: esqui, espada e ritmo formam uma das misturas mais criativas do gênero

Fresh Tracks transforma descidas de esqui em batalhas musicais cheias de obstáculos, inimigos e escolhas de roguelite, criando uma aventura que exige reflexos e convida a repetir cada jornada.

Algumas ideias parecem estranhas quando descritas em uma frase. Um jogo de ritmo com esqui, espada, fantasia nórdica, narrativa musical e estrutura de roguelite poderia facilmente virar uma colcha de retalhos. Fresh Tracks, porém, faz essa combinação funcionar de um jeito surpreendentemente natural.

A criação do estúdio canadense Buffalo Buffalo coloca o jogador no controle de Skaii, uma humana que atravessa as montanhas de Norwyn para enfrentar Mar, uma entidade mítica associada ao terror. O objetivo é devolver coragem a uma terra que perdeu seu desejo por histórias, aventuras e descobertas. Só que a campanha não avança por meio de batalhas comuns ou fases de plataforma tradicionais. Tudo acontece no ritmo das músicas, enquanto Skaii desliza por pistas perigosas, troca de trilhos, salta, abaixa, se inclina e usa sua espada para abrir caminho.

Fresh Tracks é intenso, difícil e muito mais complexo do que parece nos primeiros minutos. Também tem pequenas falhas de acabamento, melhorias pouco impactantes e momentos em que o visual não acompanha o caos da tela. Mesmo assim, o núcleo da experiência é forte o bastante para fazer cada nova tentativa parecer uma boa ideia.

Uma descida que nunca deixa o jogador parado

A estrutura principal funciona como um roguelite. Cada tentativa recebe o nome de Jornada e começa com a escolha de uma rota entre músicas diferentes. Os caminhos se ramificam, oferecendo desafios e histórias distintas antes de levar a confrontos mais importantes contra chefes.

No início, as Jornadas são curtas e servem para ensinar os fundamentos. Com o avanço da campanha, porém, elas ganham mais etapas, exigem melhor gerenciamento de recursos e tornam a derrota mais dolorosa. A vida de Skaii é a principal preocupação: zerar essa barra significa retornar ao começo da Jornada, levando o jogador a reaprender músicas e padrões até conseguir avançar mais longe.

A proposta não é simplesmente apertar botões seguindo símbolos na tela. Fresh Tracks cria uma espécie de percurso musical em que cada faixa pede uma leitura própria. Trilhos aparecem e desaparecem sob os esquis, às vezes em grupos pequenos, às vezes ocupando boa parte da pista. É necessário trocar de caminho para coletar recursos, evitar obstáculos e escolher rotas seguras.

Além disso, Skaii precisa pular, se abaixar e inclinar o corpo para os lados. Em alguns momentos, o jogo pede várias dessas ações quase ao mesmo tempo. Uma parede surge à direita, um obstáculo exige que a personagem se abaixe e a rota segura está em outro trilho. Quando tudo acontece em sincronia com a música, a sensação é excelente.

O esqui se encaixa muito bem na estrutura de um jogo rítmico. A velocidade, o movimento contínuo e a ideia de atravessar uma paisagem no compasso da trilha sonora fazem o conceito parecer óbvio depois que se entende a proposta. Fresh Tracks encontra nesse deslocamento uma identidade própria.

A espada é o que transforma ritmo em ação

O elemento que realmente diferencia Fresh Tracks de outros jogos musicais é a espada de Skaii. Controlada pelo analógico direito, ela serve para destruir obstáculos, eliminar inimigos e rebater projéteis.

Em algumas sequências, basta atacar livremente para manter o caminho desobstruído. Em outras, é preciso cortar em uma direção específica. Usar o golpe errado ou demorar demais pode significar perder vida, quebrar o ritmo e comprometer toda a Jornada.

Os ataques ainda carregam uma habilidade especial. Dependendo do poder equipado, Skaii pode recuperar vida ou lançar ondas de fogo capazes de limpar a pista. Esse recurso se torna importante principalmente nas músicas mais difíceis, quando a tela começa a ficar cheia de ameaças simultâneas.

É nesse ponto que Fresh Tracks deixa de parecer apenas um jogo de ritmo com uma mecânica curiosa. Há momentos em que ele se aproxima de um jogo de ação puro, exigindo reação rápida, atenção constante e capacidade de lidar com inimigos surgindo em vários lados.

As batalhas contra chefes são a melhor demonstração disso. Uma nevasca pode reduzir drasticamente a visibilidade enquanto uma horda parece avançar sem fim, obrigando o jogador a confiar no som, no ritmo e nos próprios reflexos para sobreviver. A música deixa de ser apenas acompanhamento e vira uma espécie de guia para atravessar o caos.

Exigente, mas com ferramentas para não afastar quem está começando

Fresh Tracks não demora para apresentar desafios complexos. O jogo exige bastante coordenação: trocar de trilho, pular, se abaixar, inclinar o corpo e atacar podem ocorrer na mesma sequência. A primeira reação pode ser achar que há informação demais na tela, e em alguns momentos realmente há.

Por sorte, as opções de dificuldade são bem pensadas. É possível ajustar a quantidade de vida disponível e a rigidez da janela de tempo para as ações rítmicas. Isso permite construir uma experiência mais permissiva, focada em avançar e ouvir as músicas, ou uma jornada mais severa para quem quer dominar os padrões.

Essa liberdade é importante porque a estrutura de tentativas não permite repetir imediatamente uma música quantas vezes for necessário. Ao falhar, normalmente é preciso voltar ao início da Jornada e enfrentar etapas anteriores mais uma vez.

Existe um modo de prática, mas as faixas precisam ser desbloqueadas com moeda acumulada. Isso pode demorar, principalmente para quem está travado em um trecho específico e quer treinar sem enfrentar todo o caminho anterior. É uma decisão que combina com o roguelite, mas também cria uma barreira desnecessária para dominar músicas difíceis.

Durante cada Jornada, há comerciantes que oferecem melhorias temporárias. Entre as tentativas, o jogador também desbloqueia recursos permanentes. O problema é que esses upgrades não transformam tanto a forma de jogar quanto poderiam. Eles ajudam, mas poucas escolhas realmente mudam a estratégia ou criam uma sensação forte de construção de personagem.

Norwyn é contada em músicas, vozes e lendas

A narrativa de Fresh Tracks não segue uma estrutura tradicional de grandes cenas e reviravoltas a cada capítulo. O mundo é revelado pouco a pouco por meio das músicas, das paisagens, das letras e dos narradores.

Norwyn é uma terra inspirada em elementos nórdicos, marcada por mitos, heróis e criaturas chamadas Mythics. Mar, a figura ligada ao terror, tornou sua população receosa e isolada. Para enfrentar essa ameaça, Skaii precisa conquistar canções que preservam histórias antigas e atrair outros Mythics para sua causa.

Cada música funciona como uma pequena fábula. Algumas falam de figuras lendárias, outras apresentam aspectos culturais de Norwyn e outras aprofundam o imaginário daquele mundo. Isso dá à campanha um formato quase episódico, em que as faixas servem como pedaços de uma mitologia maior.

Quando Skaii derrota um chefe pela primeira vez, outro Mythic passa a acompanhá-la. Essas entidades atuam como narradores e adicionam suas próprias interpretações às histórias. Repetir uma batalha já concluída pode revelar uma narrativa diferente associada àquela mesma música, e cada Mythic possui uma parte específica para contar.

Esse sistema é um dos motivos pelos quais Fresh Tracks tem boa rejogabilidade. Para conhecer completamente as histórias, é necessário vencer a aventura acompanhado por cada Mythic. Não se trata apenas de repetir fases por repetir: há novos pontos de vista, variações narrativas e razões concretas para voltar.

A trilha sonora sustenta toda a aventura

Um jogo de ritmo não sobrevive com músicas apenas razoáveis, e Fresh Tracks entende isso. São 28 faixas que atravessam pop, rock, metal e até números com uma energia próxima de musicais teatrais.

Essa variedade evita que as Jornadas pareçam repetitivas. Cada estilo muda o clima, o ritmo das ações e a forma como o jogador percebe a fase. Uma música mais pesada pode transformar a descida em uma sequência agressiva de ataques e desvios. Já outra, mais melódica, pode valorizar a sensação de deslizar por paisagens fantásticas.

As composições também fazem parte do universo. Elas não parecem músicas genéricas colocadas sobre fases aleatórias. Letras, cenários e narração trabalham juntos para tornar Norwyn mais vivo.

A principal ressalva está na transição entre uma faixa e outra. Em vez de criar passagens suaves, o jogo costuma cortar uma música de maneira abrupta antes de iniciar a próxima. Não é algo que destrua o ritmo geral, mas chama atenção justamente em uma experiência onde o áudio deveria fluir com mais naturalidade.

Falta um pouco de polimento para acompanhar a ambição

Fresh Tracks tem uma ideia excelente e uma execução muito competente, mas ainda existem detalhes que o afastam de uma experiência impecável.

A clareza visual é um deles. Quando a ação se torna muito intensa, obstáculos, trilhos, inimigos e efeitos podem disputar espaço demais na tela. Em um jogo que exige decisões rápidas, identificar a ação correta deveria ser sempre imediato. Nem sempre é.

As melhorias de meio de Jornada também poderiam ser mais ousadas. Depois de algumas tentativas, fica a impressão de que elas alteram pouco a construção de cada corrida. Um roguelite costuma se beneficiar de combinações capazes de mudar o estilo do jogador, e Fresh Tracks ainda parece tímido nesse aspecto.

Nada disso diminui a força da proposta. São questões de refinamento em um jogo que já acerta onde mais importa: a ação é viciante, as músicas são boas e o ato de deslizar, cortar e sobreviver no ritmo certo é diferente de qualquer outra coisa no gênero.

Vale a pena?

Fresh Tracks é uma das experiências mais criativas entre os jogos de ritmo recentes. Sua mistura de esqui, combate com espada, estrutura de roguelite e contos fantásticos poderia ser confusa, mas o resultado tem uma coerência impressionante.

A curva de aprendizado pode assustar, porque o jogo pede muita coisa ao mesmo tempo. Porém, as opções de dificuldade ajudam a adaptar a experiência, e dominar uma sequência complicada entrega uma satisfação enorme. As batalhas contra chefes, em especial, são momentos de pura adrenalina.

O mundo de Norwyn também é um ponto forte. As canções ajudam a contar histórias, os Mythics trazem novos ângulos para a narrativa e as 28 faixas mantêm a aventura variada. O polimento visual, as transições de áudio e os upgrades poderiam ser melhores, mas não são capazes de apagar o brilho da ideia principal.

Fresh Tracks mostra que ainda há espaço para reinventar jogos de ritmo sem abandonar aquilo que torna o gênero especial: música, precisão e a deliciosa sensação de finalmente acertar uma sequência impossível.

9Ótimo
Veredito

Ótimo

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