Review – HYPNOS impressiona pelos cenários, mas se perde em um mundo vazio

HYPNOS aposta em arquitetura lovecraftiana, espaços liminares e uma exploração contemplativa. Em Acesso Antecipado, porém, sua beleza visual ainda não é acompanhada por narrativa, personagens ou direção suficientes para sustentar a jornada.

Labirintos sempre fizeram parte dos videogames. Às vezes, são o foco de uma fase; outras, representam o próprio coração da experiência. HYPNOS, desenvolvido e publicado pela Redlock Studio, coloca a exploração de ambientes vastos e desconcertantes no centro de sua proposta.

Descrito como um jogo de aventura e exploração em primeira pessoa, HYPNOS leva o jogador aos Confins Distantes, uma região próxima da Cidade Sem Nome, nos limites dos Sonhos. O objetivo é atravessar esse mundo estranho enquanto acompanha Choron, um protagonista atormentado por visões e em busca de um homem chamado Matthew.

A proposta tem potencial. Os cenários são bonitos, monumentais e estranhos do jeito certo. O problema é que, no estado atual de Acesso Antecipado, HYPNOS parece muito mais interessado em ser contemplado do que em ser jogado.

Um mundo lovecraftiano bonito e silencioso demais

HYPNOS causa uma boa primeira impressão. Sua arquitetura impossível, paisagens que desafiam a gravidade e estruturas gigantescas criam um ambiente com forte inspiração lovecraftiana.

A paleta inicial é predominantemente preta e branca, o que reforça a sensação de estar atravessando um sonho ou uma realidade incompleta. Há indícios de que outras regiões do jogo terão mais cor e variedade visual, mas as áreas disponíveis já conseguem estabelecer uma identidade própria.

O problema é que a beleza dos cenários acaba expondo uma ausência importante: quase não há vida no mundo.

Por longos períodos, o jogador atravessa áreas enormes sem encontrar personagens, acontecimentos ou descobertas relevantes. Explorar uma região silenciosa pode ser eficaz para criar tensão ou isolamento, mas HYPNOS faz isso por tempo demais. Em certos momentos, a sensação não é de mistério; é apenas de vazio.

Um mundo grande precisa de razões para ser explorado. Pode ser uma história escondida, eventos ambientais, personagens interessantes, segredos relevantes ou mecânicas que estimulem a curiosidade. Em HYPNOS, esses elementos ainda parecem escassos.

A história existe, mas não encontra o jogador

A aventura começa quando Choron desperta em um beco escuro e encontra uma figura diante de uma espécie de portal vermelho. A partir daí, ele segue visões relacionadas à montanha sagrada de Kadath e procura entender sua conexão com Matthew.

Também existe uma estrutura política envolvendo os Três Monarcas, líderes que passaram a governar no lugar dos deuses. É uma premissa interessante, cheia de espaço para mistério, horror cósmico e intrigas.

Mas pouco disso ganha força durante a experiência atual.

HYPNOS parece adotar uma narrativa indireta, inspirada em jogos que preferem deixar o jogador montar o contexto por conta própria. Essa abordagem pode funcionar muito bem quando o mundo oferece pistas suficientes para alimentar teorias e interpretações. Aqui, no entanto, faltam elementos concretos.

Não é necessário explicar tudo em diálogos longos ou textos expositivos. Ainda assim, o jogo precisa dar ao jogador algo para perseguir além de paisagens bonitas. Choron busca Matthew, mas a conexão emocional com essa busca é fraca, porque o jogador aprende pouco sobre os dois ou sobre o significado dessa jornada.

Exploração com plataforma leve e teleporte

A jogabilidade é simples. HYPNOS funciona, em essência, como um walking simulator com alguns trechos leves de plataforma e diálogos ocasionais.

Não há sistema de combate tradicional. Em algumas escolhas narrativas, Choron pode usar uma pistola para resolver uma situação, mas o jogador não participa diretamente de confrontos. A experiência é voltada para caminhar, observar, encontrar personagens e atravessar cenários.

A mecânica mais interessante envolve os Pilares das Testemunhas.

Esses pilares têm duas funções:

Servem como pontos de retorno, permitindo reaparecer caso o personagem se perca, fique preso ou caia no vazio; Funcionam como pontos de teleporte entre áreas já ativadas.

Para viajar entre eles, é preciso mirar e localizar padrões de pulsação no campo de visão. Ao identificar corretamente o sinal, Choron se teletransporta para o pilar visível.

É uma ideia boa e combina com a atmosfera surreal do jogo. Porém, só é possível viajar para pilares já ativados, o que exige atenção durante a exploração. Ignorar um ponto de teleporte pode significar precisar voltar por longos caminhos depois.

O sistema ajuda a reduzir parte da frustração de um mundo tão grande, mas não resolve a falta de direção geral.

Explorar sem saber para onde ir perde o encanto

O maior problema de HYPNOS não é apenas o vazio. É o vazio combinado com a ausência de orientação.

O jogo oferece pouca clareza sobre qual é o próximo objetivo, onde encontrar eventos importantes ou por que determinada área merece ser explorada. Uma experiência sem marcadores pode funcionar muito bem quando o próprio ambiente guia o jogador de maneira natural. Em HYPNOS, essa comunicação ainda parece insuficiente.

É fácil chegar a um ponto e pensar: “Para onde eu vou agora?” Pior ainda: “Por que eu deveria continuar indo?”

Exploração livre depende de curiosidade, mas curiosidade precisa ser recompensada. Quando o cenário é enorme, a caminhada é lenta e os encontros são raros, a sensação de descoberta pode se transformar em cansaço.

Personagens ainda não têm força suficiente

Choron é um protagonista de passado sombrio, reservado e atormentado por visões. É um arquétipo comum em jogos de fantasia sombria e horror psicológico, mas HYPNOS ainda não encontra uma forma particular de trabalhar essa figura.

Os personagens secundários também são pouco desenvolvidos. Muitos parecem existir apenas para oferecer uma frase sobre o mundo, indicar para onde estão indo ou entregar uma pequena informação sobre o estado daquela realidade.

Isso seria aceitável em uma aventura curta e altamente atmosférica. Porém, em um mundo amplo que depende da exploração, personagens mais marcantes poderiam ser essenciais para criar conexão emocional e enriquecer a narrativa.

No estado atual, os habitantes dos Confins Distantes parecem mais elementos decorativos do que pessoas capazes de tornar esse universo memorável.

A movimentação torna a exploração ainda mais cansativa

A velocidade de deslocamento também prejudica o ritmo. Jogando com controle de Xbox, o personagem anda muito devagar por padrão.

Para caminhar um pouco mais rápido, é necessário segurar o gatilho esquerdo. Para correr, é preciso manter os dois gatilhos pressionados. Em um jogo com áreas amplas e muitas travessias, essa escolha se torna cansativa rapidamente.

A falta de uma opção para alternar corrida, em vez de exigir que o jogador segure os comandos durante longos períodos, é difícil de entender. Esse tipo de controle pode até funcionar em um jogo mais curto e linear, mas em HYPNOS apenas aumenta a sensação de que deslocamento é uma tarefa, não uma parte interessante da exploração.

Vale a pena?

HYPNOS tem uma base visual promissora. A direção de arte, os espaços liminares e a arquitetura lovecraftiana criam cenários que merecem ser vistos. Para fãs de jogos contemplativos, atmosferas estranhas e exploração sem combate, há algo interessante aqui.

Mas o jogo ainda parece incompleto além do esperado para um Acesso Antecipado. O mundo é grande demais para tão poucos acontecimentos, a narrativa oferece pistas insuficientes para prender a atenção e os personagens ainda não possuem profundidade.

A movimentação lenta e a falta de orientação agravam o problema. HYPNOS apresenta um universo visualmente intrigante, mas ainda não oferece motivos narrativos ou mecânicos fortes para atravessá-lo por tanto tempo.

No momento, a melhor recomendação é experimentar a demo disponível na Steam. HYPNOS pode conquistar jogadores que se conectem profundamente com seu clima de sonho estranho e solidão cósmica, mas ainda precisa preencher seu belo vazio com mais história, personalidade e propósito.

0Ruim
Veredito

Ruim

Review – HYPNOS impressiona pelos cenários, mas se perde em um mundo vazio