27 de Março de 2026
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Review – Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflections

Um RPG de monstros elegante, sólido e cheio de personalidade, que consolida Monster Hunter Stories como muito mais do que apenas um “spin-off bonitinho”.

  • março 24, 2026
  • 9 min read
Review – Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflections

Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflections tinha tudo para ser assunto da semana… se não tivesse sido lançado na mesma janela em que todo mundo só falava de Crimson Desert. Em meio a trailers ultra bem feitos naquele estilo artístico já familiarizado pelos fãs de Monster Hunter Stories e hype de mundo aberto “next big thing”, o novo RPG de monstros da Capcom acabou parecendo menor do que realmente é. E isso é uma pena, porque Twisted Reflections não só é um dos melhores jogos da sub-série Stories, como também é um dos RPGs de coleção de monstros mais redondos dos últimos anos.

Enquanto o gênero vive uma fase curiosa — com Pokémon prometendo renovação, concorrentes menores ganhando espaço e vários indies ocupando todos os nichos possíveis — Stories 3 chega com uma proposta clara: pegar o que havia de bom nos anteriores, mexer nos pontos mais criticados e entregar a versão mais ambiciosa desse spin-off até agora. No geral, consegue isso com folga.

Um Monster Hunter que finalmente leva a história a sério

A franquia Monster Hunter nunca foi famosa por grandes narrativas. Mesmo nos jogos principais, a história sempre serviu mais como desculpa para caçar monstros gigantes do que como motor emocional. Os dois primeiros Stories já tentavam mudar isso, mas ainda soavam como aventuras bem simples: jornadas de amadurecimento com alguns momentos marcantes, e só.

Twisted Reflections muda de patamar. A trama abandona a estrutura “excursão de protagonista curioso pelo mundo” e aposta em algo mais político e dramático: reinos em conflito, interesses de nobreza e conselheiros, desastres ecológicos, segredos do passado que voltam à tona, questões de destino e responsabilidade. Não é uma revolução dentro dos RPGs — quem joga o gênero há anos vai reconhecer vários elementos —, mas é montado com cuidado, ritmo e surpresas suficientes para segurar como principal motivação de continuar jogando.

O texto é mais maduro, os personagens secundários têm espaço de verdade e muitos deles vêm acompanhados de cadeias de missões próprias que aprofundam tanto suas histórias pessoais quanto o entendimento do mundo maior. O jogo nunca abandona esse elenco ao longo da campanha, e ver como cada um reage aos acontecimentos do enredo ajuda a dar um peso que raramente se vê em Monster Hunter.

Pela primeira vez, é totalmente honesto dizer que você pode seguir adiante pela curiosidade de ver o que vai acontecer, não apenas para conseguir um Monstie mais forte ou chegar na próxima área. Ah, e uma coisa que sempre perguntam em contextos de jogos assim (como sequência) é: Preciso ter jogado os outros dois primeiros para mergulhar e entender esse terceiro jogo da franquia? E a resposta é: Não! Vai sem medo e se gostar, pode começar a jogar o 1 e depois o 2 e você terá uma experiência completa da mesma forma.


Um mundo instanciado, mas vivo e interessante

Twisted Reflections usa a RE Engine para construir um mundo que não é exatamente “mundo aberto”, mas se aproxima do conceito com grandes regiões interligadas por carregamentos. Essa escolha, além de inteligente tecnicamente, funciona muito bem no ritmo da aventura.

Cada área é praticamente um bioma completo, com ecossistemas próprios, fauna, flora, climas e cidades cheias de detalhes. Florestas densas, desertos marcados por ruínas, regiões montanhosas, zonas corrompidas por fenômenos estranhos… tudo é visualmente variado e frequentemente bonito de olhar. Em termos de RPG de captura/coleção de monstros, poucas séries fora Pokémon Sun/Moon tinham dado tanta importância ao mundo em si como parte central do charme — e Stories 3 resgata isso com gosto.

Explorar também ficou menos cansativo do que antes. Você ainda precisa usar as habilidades específicas dos seus Monsties para atravessar obstáculos (pular, planar, escalar, nadar, etc.), mas trocar de criatura no mapa agora é rápido e fluido, graças a uma interface mais esperta, com seleção em roda e resposta imediata. A sensação de “anda, para, abre menu, troca, anda, para de novo” dos jogos anteriores foi bastante atenuada, o que estimula muito mais a curiosidade de vasculhar cada canto.


Coleta de ovos e Monsties: ainda repetitivo, mas melhor resolvido

O processo de adquirir novos monstros continua seguindo a fórmula própria da série Stories: você enfrenta uma criatura, ela pode gerar uma toca, você entra nessa toca, pega um ovo e choca seu futuro Monstie. Em teoria, é uma mecânica temática e fiel ao universo; na prática, sempre teve um quê de repetição cansativa, especialmente em dungeons maiores, com layouts reaproveitados.

Twisted Reflections não reinventa esse sistema, mas refina. As tocas são mais compactas, diretas e com menos “encheção de linguiça”. Você passa menos tempo vagando em corredores idênticos só para chegar ao ovo. A aleatoriedade na escolha da gema também está mais amigável: é mais comum conseguir algo que realmente interessa, em vez de sair da dungeon frustrado.

Dito isso, o método ainda conserva um traço de ritual repetitivo. Depois de muitas horas, fica claro que os layouts começam a se repetir, e o processo pode voltar a cansar quem já tinha pouca paciência nos jogos anteriores. A diferença é que, agora, essa fadiga demora mais para chegar, e é bem mais fácil justificar “só mais uma toca” quando a recompensa vem com mais frequência.


Sistema de combate: profundo, temático… e exigente

O combate por turnos de Monster Hunter Stories sempre foi um ponto de divisão entre os fãs. A ideia é nobre: traduzir a lógica das caçadas da série principal para um RPG de turnos, mantendo ênfase em comportamento de monstros, partes do corpo, tipos de ataque e sincronia. O resultado, nos jogos anteriores, oscilava entre interessante e arrastado.

Em Twisted Reflections, a base continua a mesma:
– Ataques divididos em Power, Speed e Technical, num triângulo de pedra-papel-tesoura;
– Leitura de padrões de monstros para saber que tipo de ataque eles provavelmente usarão;
– Importância de vantagens elementais;
– Golpes em conjunto com seu Monstie quando a barra de vínculo enche;
– Ataques especiais mais cinematográficos;
– Quebra de partes específicas para enfraquecer inimigos ou obter materiais raros.

No papel, é um sistema riquíssimo. Na prática, ele tem duas faces:

  • O lado positivo é que, quando você entra no “flow”, as batalhas se tornam estratégicas e tematicamente coerentes com a franquia. Entender o padrão de um monstro, antecipar sua próxima ação, reagir com o tipo de ataque certo, focar em partes críticas… tudo isso cria lutas que parecem versões planejadas, em turnos, das caçadas em tempo real.

  • O lado delicado é que até encontros simples podem demorar mais do que o esperado, justamente porque há muitos elementos a considerar. Mesmo com a opção de acelerar animações, ainda é um combate que exige atenção constante, sem aquele “modo automático mental” que outros RPGs permitem em batalhas triviais.

Se você gosta de sistemas de batalha cheios de camadas, vai se sentir em casa aqui. Se preferia algo mais ágil e enxuto, é possível que, depois de muitas horas, o volume de lutas comece a pesar. Eu não diria que o combate “estraga” a experiência — longe disso —, mas ele certamente é uma das partes que mais exige tolerância ao estilo específico que Stories criou pra si.


Apresentação, performance e clima geral (PC)

Em termos de direção de arte, Stories 3 é um salto claro em relação aos anteriores. O estilo cel-shaded, o uso de cores, a iluminação e os efeitos dão ao jogo uma aparência de anime de alto orçamento. Personagens são expressivos, monstros têm presença e os cenários batem aquele equilíbrio entre fofinho e ameaçador que combina com a proposta.

No PC, a experiência se beneficia de resolução maior, texturas mais nítidas e framerate estável. A sensação de mundo “vivo e denso” que o jogo tenta passar é muito melhor apreciada quando você não está brigando com serrilhados ou quedas constantes de desempenho. A RE Engine mostra seu valor em setups mais robustos: mesmo com áreas amplas e cheias de detalhes, o jogo se mantém suave, o que ajuda bastante na imersão.

A trilha sonora acompanha bem, alternando entre temas mais épicos nas grandes batalhas e melodias mais suaves em cidades e momentos de história. Não é aquela OST que revoluciona o gênero, mas tem faixas memoráveis e cumpre perfeitamente o papel de amplificar o clima de cada situação. O design de som dos monstros e golpes também reforça a sensação de impacto na batalha.


Vale a pena?

Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflections é, com folga, o ponto mais alto da sub-série até agora. Ele entrega uma história mais forte, com elenco cativante e temas que vão além do básico “viajem e fiquem mais fortes”; um mundo bonito e variado, que dá vontade de explorar e conhecer; melhorias práticas em navegação, coleta de ovos e fluxo geral de jogo; um sistema de combate profundo e coerente com a identidade Monster Hunter, ainda que exigente em termos de tempo e atenção.

Ao mesmo tempo, ele não vai converter todo mundo. Quem já achava o processo de farm de ovos e o combate muito trabalhosos talvez continue esbarrando nesses pontos, mesmo com as melhorias. Stories 3 reduz a fadiga, mas não renega a base de sua fórmula; é uma evolução, não uma reinvenção.

O que incomoda mesmo é ver um jogo desse nível ser ofuscado pelo hype de outros lançamentos. Twisted Reflections merecia mais luz: é um RPG de monstros robusto, carismático, tecnicamente sólido no PC e com identidade própria dentro do universo Monster Hunter.

Para quem gosta do gênero, tem carinho pela franquia ou simplesmente procura um RPG por turnos com foco em monstros, narrativa e exploração, a recomendação é direta: não deixe esse aqui passar batido.

Agradecimento especial aos nosso amigos da Capcom Brasil por fornecer um código para review do game!

9

Ótimo

Um RPG de monstros elegante, sólido e cheio de personalidade, que consolida Monster Hunter Stories como muito mais do que apenas um “spin-off bonitinho”.

Plataformas:

PCXboxPlayStationNintendo Switch
About Author

LuanVerissimo

Diretor de conteúdo do Site AcessoGEEK e Redator no Terra (Geek), especializado em games, cinema, séries e tecnologia, admirador da astronomia e suas teorias místicas de viagens no tempo e espaço, aliens e planetas habitáveis. Sonho em conhecer a NASA.