Futebol e videogame quase sempre seguem um caminho conhecido. Passe, cruzamento, finalização, disputa de bola, repetição. Captain Tsubasa 2: World Fighters prefere jogar essa cartilha pela janela e mandar a bola atravessar o campo como um míssil, com jogadores voando, carrinhos que parecem capazes de abrir uma cratera e goleiros sendo empurrados para dentro do gol por chutes absurdamente potentes.
É uma continuação que entende bem o que a série representa. Não tenta competir com simuladores, não finge que está reproduzindo uma partida normal e não se preocupa em parecer plausível. A graça está justamente no exagero. Cada jogador pode ser uma arma especial, cada jogada tem potencial para virar uma pequena cena de anime e uma simples recuperação de bola pode terminar em uma sequência tão espalhafatosa que seria impossível acontecer em qualquer estádio real.
Confira também a nossa Review de Captain Tasubasa – Rise of New Champions (2020)
O primeiro jogo, lançado em 2020, já oferecia uma alternativa interessante para quem estava cansado do futebol mais sério e engessado dos grandes lançamentos anuais. World Fighters segue a mesma direção, mas melhora a variedade das partidas, amplia as opções de times, adiciona mais possibilidades para os golpes especiais e constrói uma campanha maior. Não é uma mudança radical de fórmula, mas é uma evolução clara.
Ainda existem problemas. O futebol jogado na prática pode parecer travado em certos momentos, a história ocupa mais espaço do que algumas pessoas vão querer dar a ela e o personagem criado pelo jogador fica estranho dentro de uma narrativa tão centrada em Tsubasa e nos demais ícones da obra. Mesmo assim, é difícil não se deixar levar pelo carisma desse universo.
Uma campanha que trata futebol como novela
A história acompanha os acontecimentos após o jogo anterior e usa o arco World Youth como base. Tsubasa está um pouco mais velho, tentando crescer no futebol profissional no Brasil, enquanto o torneio mundial de seleções Sub 20 começa a se aproximar. Como era de se esperar de Captain Tsubasa, o futebol é só uma parte do drama.
Rivalidades antigas retornam, personagens novos surgem com passados exagerados e cada partida carrega algum peso emocional enorme. Há jogadores que entram em campo movidos por vingança, outros que carregam traumas familiares e alguns que tratam marcar um gol como se fosse uma declaração de guerra. É tudo muito intenso, melodramático e, para quem entra no clima, divertido demais.

O jogo não tem vergonha de ser uma grande novela esportiva. Os personagens falam sobre sonhos, orgulho, amizade, superação e responsabilidade com uma seriedade que contrasta com o fato de que, minutos depois, alguém vai dar um chute capaz de lançar o adversário para longe. Essa mistura faz parte do charme.
Mesmo quem não conhece o anime consegue acompanhar a trama, porque o jogo apresenta bem seus personagens e conflitos. Quem já é fã, naturalmente, encontra mais referências e entende melhor o peso de certas relações. A campanha não depende exclusivamente de nostalgia, mas é inegável que ela conversa muito mais forte com quem cresceu vendo Tsubasa e companhia transformarem uma partida em uma guerra de emoções.
O ritmo, porém, pode causar estranhamento. Há muito diálogo. Bastante mesmo. Em vários momentos, o jogador passa mais tempo lendo conversas e acompanhando acontecimentos do que jogando futebol. Existem histórias paralelas e cenas adicionais que aprofundam os personagens, algo que ajuda a dar contexto para o elenco, mas também pode cansar quem só quer montar um time e partir para os chutes especiais.
Captain Tsubasa 2 não é o tipo de jogo que abre espaço para uma campanha silenciosa e objetiva. Ele quer contar sua história, quer apresentar seus personagens e quer insistir em cada drama. Para alguns, isso será uma qualidade. Para outros, será o principal motivo para perder a paciência.
O protagonista não é exatamente quem está no controle
Uma escolha curiosa da campanha é colocar o jogador no papel de um personagem criado do zero. Você monta seu atleta, define visual e acompanha a jornada dele no meio de nomes conhecidos da franquia. O problema é que a narrativa continua girando, na maior parte do tempo, ao redor de Tsubasa e de outros personagens importantes do anime.
O avatar criado participa das conversas, recebe elogios e está presente em várias cenas, mas raramente parece indispensável. Ele funciona mais como alguém que acompanha de perto os acontecimentos do que como a pessoa que realmente muda o rumo deles. Isso deixa a sensação de que o modo carreira tenta colocar o jogador no centro da história, mas não consegue fazer isso totalmente.

Não é uma falha que destrua a campanha. Existe até um certo humor em ver o personagem personalizado parado no canto enquanto uma discussão dramática acontece entre figuras muito mais importantes. Ainda assim, faltou uma integração mais natural. O modo poderia assumir Tsubasa como protagonista ou dar mais espaço e personalidade ao atleta criado pelo jogador.
Jogadas normais não têm vez por aqui
A base das partidas continua sendo fácil de entender. É preciso tocar a bola, escapar da marcação, avançar pelo campo e encontrar uma chance de finalizar. Só que quase todas essas ações recebem alguma camada extra de espetáculo.
A disputa de posse, por exemplo, não se resume a pressionar um botão na hora certa. Há dribles especiais, investidas e movimentos que ajudam a evitar adversários. Ao encadear boas jogadas, o jogador aumenta um medidor que fortalece suas ações e permite usar golpes mais poderosos depois.
A finalização também foge do padrão. Ao chutar, você escolhe a direção da bola e tenta atingir o goleiro da melhor forma possível. Em vez de simplesmente superar uma animação de defesa, o objetivo é reduzir uma barra de resistência. Quando ela se esgota, o gol finalmente sai. É um sistema mais próximo de uma batalha do que de uma finalização tradicional, e isso combina perfeitamente com Captain Tsubasa.
As Max Actions receberam uma ampliação importante nesta sequência. No jogo anterior, esses movimentos especiais estavam mais ligados a chutes e carrinhos. Agora, dribles e passes também podem ganhar versões próprias. Isso faz com que os jogadores tenham funções mais diferentes em campo e ajuda a dar um pouco mais de variedade às posições.
Atacantes continuam sendo ótimos para decidir partidas com finalizações devastadoras, mas meio campistas, defensores e outros tipos de atleta passam a ter ferramentas mais relevantes. Um passe especial pode abrir uma defesa, um drible pode criar espaço e uma ação coletiva pode mudar completamente uma jogada.
As habilidades de equipe estão entre os momentos mais divertidos. São movimentos em que vários jogadores participam de uma sequência impossível, com saltos, acrobacias e passes que desafiam qualquer noção de gravidade. É o tipo de coisa que faz sentido apenas porque Captain Tsubasa não tenta ser realista nem por um segundo.
Mais estratégia, mas ainda com algumas travadas
World Fighters melhora a fluidez das partidas em relação ao antecessor. O jogo tem mais movimentação, mais possibilidades de criar sequências e uma estrutura que dá valor a dribles e avanços bem executados. O medidor de combo incentiva o jogador a manter a bola, escapar da pressão e preparar uma ação forte em vez de tentar resolver tudo com um único chute especial.
Há uma camada estratégica maior, embora ela continue simples o bastante para não afastar quem está ali pelo espetáculo. Escolher quando usar uma habilidade, como montar uma jogada e em que momento vale gastar uma Max Action pode decidir uma partida apertada.

Ainda assim, alguns sistemas parecem pouco naturais. Certas ações não têm a velocidade ou a precisão que um jogo focado em futebol arcade pede. Em alguns momentos, a partida perde aquela sensação de resposta imediata, como se o jogo precisasse de um pouco mais de agilidade para acompanhar o exagero das animações.
O resultado é um futebol muito divertido, mas não necessariamente o mais refinado. Há jogos que entregam partidas mais fluidas e técnicas, só que nenhum deles faz uma disputa de bola parecer uma cena decisiva de um anime esportivo. World Fighters compensa parte de sua falta de precisão com identidade.
O conteúdo demora a aparecer
Ao abrir o jogo pela primeira vez, World Fighters pode passar uma impressão de escassez. Nem todos os times estão disponíveis de início. Há alguns clubes brasileiros, equipes escolares japonesas que retornam do jogo anterior e as seleções de Japão e Brasil.
A variedade maior precisa ser desbloqueada ao avançar na campanha. Com o tempo, várias seleções nacionais entram na lista, incluindo países como Alemanha e Uzbequistão. Essa progressão recompensa quem se dedica ao modo história, mas pode incomodar quem gostaria de ter todo o conteúdo liberado desde o primeiro momento.
Depois que os desbloqueios começam a aparecer, o jogo ganha bem mais fôlego. Também existem opções de partidas personalizadas, edição de times e confrontos online. A presença do multiplayer é bem vinda, ainda que ele não pareça ser a principal razão para investir no jogo. O verdadeiro brilho está em reunir amigos localmente, escolher personagens conhecidos e assistir o campo virar um desfile de jogadas absurdas.
Visual que respeita a essência do anime
Captain Tsubasa 2 mantém a direção de arte do primeiro jogo e acerta ao não tentar reinventá la. Os personagens são bem animados, os golpes especiais têm impacto e o estilo visual preserva o tom do anime. Há mais detalhes e mais brilho do que antes, mas a identidade continua a mesma.
O elenco também ajuda bastante. Os jogadores têm cortes de cabelo exagerados, uniformes chamativos e aquela aparência típica de atletas de anime dos anos 1990. Em uma produção mais séria, isso talvez fosse estranho. Aqui, é parte da diversão. Os personagens parecem ter saído de uma época em que um penteado ruim podia ser sinal de um chute imparável.

Vale a pena?
Captain Tsubasa 2: World Fighters não é um jogo para quem procura futebol realista. Também não é ideal para quem quer uma campanha curta, direta e com pouca conversa. É uma experiência feita para abraçar o exagero do anime, transformar cada partida em um espetáculo e fazer com que uma defesa ou um passe tenha a mesma importância de um golpe final em uma luta.
A sequência melhora o sistema de jogo ao ampliar as ações especiais, dá mais espaço para diferentes posições em campo e oferece uma campanha maior, recheada de personagens e situações que tratam o futebol com uma intensidade deliciosa. Os times extras, os modos adicionais e a possibilidade de personalizar equipes também ajudam a fazer o jogo crescer conforme o jogador avança.
Os problemas existem. O ritmo da história é lento para quem quer jogar partidas sem interrupção, alguns comandos e sistemas poderiam ser mais fluidos, e o personagem criado não se encaixa tão bem em uma narrativa que claramente pertence a Tsubasa. Mesmo assim, World Fighters é uma evolução consistente e uma das alternativas mais divertidas para quem cansou de futebol previsível. Outro “problema” que pra mim pegou muito foi a falta de localização para o nosso idioma, visto que, no primeiro jogo lançado em 2020 a publisher lançou o jogo em PTBR e realmente não sei o que aconteceu e porque essa decisão de não lançar sua sequência localizado.
Captain Tsubasa 2: World Fighters já está disponível para PC, Xbox Series, PlayStation 5 e Switch. Nossa análise foi feita via PC com uma cópia fornecida pela Bandai Namco.







