Review – Fading Echo: Um jogo sólido que lembra a vibe que vivemos no PlayStation 2
Fading Echo é o novo jogo que te envolve numa nostalgia mesmo sendo uma história nova, moderna e original.

Fading Echo não é aquele tipo de projeto que parece ter surgido de uma planilha. Dá pra sentir que tem história de bastidor, aquelas conversas de mesa de bar e sessões de RPG de mesa que acabam virando “e se a gente transformasse isso num jogo?”. Originalmente pensado como algo bem próximo de uma campanha à la Dungeons & Dragons, ele ganhou cara de videogame pelas mãos da Emeteria, um estúdio formado por gente calejada da indústria.
O resultado é um action RPG com uma base conceitual forte, uma ambientação muito bem amarrada e um sistema elemental curioso, mas também com tropeços claros em ritmo, repetição e na sensação do combate.
Chegando a Corel
A história se passa em Corel, um planeta que já foi quase um paraíso e agora está no limite do colapso. Aquele cenário de “oásis que todo mundo lembra com carinho” praticamente virou memória. O clima é mais de conto distorcido do que de épico clássico.
No centro disso está One, a protagonista. Ela é ligada ao tal Etere, uma espécie de poder que a coloca automaticamente na posição de “pessoa que precisa consertar as coisas”. A trama vai bem além do clichê literal de “salvar o mundo”, mas entrar em detalhes só serviria para estragar surpresas. O que importa é que a jornada leva você por ilhas estranhas, realidades que não obedecem à lógica e mundos que brincam com paradoxos.

Uma das primeiras coisas que chamam atenção é a forma como o jogo apresenta essa história. Em vez de cenas tradicionais, Fading Echo usa uma estrutura que lembra webcomic: quadros, balões de fala pairando próximos aos personagens, enquadramentos que parecem página de HQ que ganhou vida. É uma solução simples, mas eficaz. Aproxima o jogo da linguagem dos quadrinhos, deixa tudo mais leve e, ao mesmo tempo, reforça o tom de “história ilustrada” que você está vivendo em vez de só assistir. Não reinventa a roda nesse quesito, mas ainda assim é uma escolha de design muito acolhedora.
Estilo, areia e quadrinhos
Do ponto de vista visual, Fading Echo conversa diretamente com quem gosta de ambientações desérticas com um empurrãozinho punk. Não é aquele deserto “realista”, mas um cenário estilizado, cheio de sucata, estruturas estranhas, cores saturadas e elementos que parecem ter saído de um comic americano.
O uso da estética de HQ não se limita às cenas. Vários momentos da campanha reforçam essa identidade, seja na forma como personagens são emoldurados, seja na maneira como o texto aparece em balões, seja na transição entre uma cena e outra. Mesmo quando a história dá voltas com multiverso e temas mais abstratos, o visual mantém tudo coeso.
É um jogo que, visualmente, sabe o que quer ser e entrega isso com consistência.
Água como eixo de tudo
A grande cola mecânica de Fading Echo é a água. Não só como símbolo ou metáfora, mas como ferramenta concreta de jogo.
One pode, a qualquer momento, abandonar a forma humana e virar uma esfera de água. Isso não é efeito cosmético. Em muitos trechos, é praticamente obrigatório. Nessa forma, ela se espreme entre barras, passa por debaixo de portões, atravessa frestas e encontra atalhos que seriam impossíveis em corpo sólido. É uma daquelas mecânicas que logo se tornam parte natural do repertório do jogador.
O mundo inteiro parece ter sido desenhado ao redor dessa lógica. Corel está corrompida, tomada por lava, resíduos tóxicos esverdeados, poças corrosivas e outros líquidos pouco acolhedores. A graça está em como a água dialoga com esses elementos. Misturar, espalhar, neutralizar, mudar o estado do cenário. Em puzzles, isso aparece de forma clara: a maneira como você usa o elemento certo no lugar certo pode abrir caminho, desbloquear mecanismos, criar passagens antes inacessíveis.

Essa parte é, sem exagero, uma das melhores ideias do jogo. Quando as fases exploram bem as combinações, o gameplay ganha uma camada a mais, e você para de enxergar qualquer poça como “decoração” para começar a ver possibilidades de interação.
Uma heroína que luta e escorre
Fora dessa versatilidade aquática, One também é uma lutadora competente. Ela conta com um grupo de figuras meio desgarradas que aparecem ao longo da aventura e ajudam a dar cor à narrativa.
Em combate, a protagonista alterna golpes corpo a corpo em forma humana com golpes à base de água e outros elementos em forma esférica. As combos físicas incluem socos, chutes e até aquele empurrãozinho maroto para jogar inimigos em buracos ou zonas perigosas. Em forma líquida, os ataques se tornam projéteis ou investidas que combinam com a natureza da substância absorvida.
Os inimigos, por sua vez, não são simples sacos de pancada. Muitos vêm “banhados” em elementos específicos. Você encontra adversários envoltos em fogo, cobertos de toxinas, protegidos por camadas que exigem o uso do elemento certo para serem quebradas com eficiência. Isso cria uma dinâmica de pedra-papel-tesoura bem destacada, sem ser totalmente trivial.
O toque mais interessante é a habilidade de One de absorver outros elementos além da água. Ela pode, por exemplo, puxar lava, resíduos tóxicos e variações de corrosão para o próprio corpo. Isso muda o efeito de seus ataques e abre caminho para resolver desafios de exploração que dependem dessa “contaminação temporária”. É quase como se cada tipo de substância fosse um pequeno power-up situacional.
No papel, é um sistema de combate e exploração muito mais elaborado do que a média.
Onde o combate perde força
Quando você começa a jogar, dá para ver que as ideias são boas. O problema é que, na prática, o combate não entrega o impacto que esse cenário todo sugere.
Os movimentos são rápidos, os comandos respondem, mas falta aquele peso que faz você sentir que realmente acertou um golpe. A colisão visual e sonora dos ataques é mais “leve” do que deveria. Em poucos minutos de combate, a sensação recorrente é de estar apertando botões em sequência, sem que cada ação carregue uma consequência forte.

Isso se soma a outro detalhe que mexe com a dificuldade. One não tem barra de stamina. Nenhuma limitação clara. Ela pode rolar, esquivar e se reposicionar o tempo todo, sem punição. Em teoria, isso dá fluidez. Em prática, isso facilita demais a vida, especialmente quando combinamos essa liberdade com inimigos que, apesar de terem elementos variados, não exigem tanta leitura avançada de padrões.
Mesmo em níveis de dificuldade mais altos, quem abusa das esquivas tende a passar por muitos encontros sem grande tensão. É como se todo o potencial tático do sistema elemental ficasse um pouco ofuscado por um combate que não impõe muito respeito.
A soma desses fatores faz com que, passado o encanto inicial das formas e dos elementos, grande parte das lutas acabe soando repetitiva.
O loop que acaba entregando o truque
Em termos criativos, Fading Echo acerta o tom. Mas quando se fala de estrutura e ritmo, a experiência tropeça.
Em pouco tempo, o jogador percebe que o jogo gira em torno de um ciclo bem definido. Quase sempre a progressão passa por uma sequência mais ou menos assim: enfrentar um grupo de inimigos, agarrar um cristal, encontrar uma porta ligada ao tal multiverso, ativar ou atravessar esse portal.
Mesmo que a narrativa esteja presente para tornar esses passos mais significativos, o fato de a estrutura se repetir de forma tão clara acaba tirando boa parte da surpresa. Não é difícil chegar a um ponto em que você antecipa, de maneira quase automática, o que vem a seguir.
Esse problema fica mais evidente porque o jogo não se apoia muito em pontos de interesse marcados ou em um sistema de orientação mais amigável. Não há uma bússola clara, um caminho mais ou menos sugerido, nada que sirva como “empurrãozinho” elegante.
Isso poderia ser uma decisão interessante se fosse sempre bem equilibrada. A ideia de deixar o jogador se orientar com pouca ajuda tem seu charme, ecoa jogos mais antigos e agrada quem gosta de se virar “no olho”. Mas, aqui, essa escolha leva com frequência a idas e vindas desnecessárias, a retornos involuntários e a uma sensação de estar rodando em círculo até achar o próximo objetivo.
Mesmo algo simples, como uma opção de orientação que pudesse ser ligada ou desligada, ajudaria muito. Faltou esse cuidado.
Tentativa honesta de mexer nas regras
Apesar desses tropeços, é difícil dizer que Fading Echo joga no seguro. Ele tenta deslocar algumas expectativas tradicionais do gênero. Visualmente, não parece “mais um RPG de fantasia genérico”. O uso de quadrinhos como formato de narrativa, a água como metamorfose constante, o foco em interações de elementos e a presença do multiverso como peça de enredo mostram uma vontade real de experimentar.

Esse tipo de ousadia sempre vem com um risco. O jogo se afasta de certas convenções que o público já conhece e domina, e isso pode gerar algum estranhamento. Num primeiro momento, essa estranheza é até bem-vinda. O problema é quando algumas dessas decisões não são acompanhadas de ajustes finos no resto do design.
É o caso aqui. Fading Echo redesenha algumas cartas do gênero, mas nem sempre consegue mantê-las equilibradas na mão. Ainda assim, é preferível um jogo que tenta algo diferente e erra em alguns pontos do que um que não arrisca nada.
Falta de suporte ao idioma
Um detalhe que pesa bastante para quem não domina línguas estrangeiras: Fading Echo não conta com legendas em português. E não são poucos os diálogos. Há muita conversa durante as cenas e ao longo do próprio gameplay.
Isso significa que, para boa parte do público brasileiro, a experiência narrativa perde impacto. Entender quem é quem, por que tal personagem toma determinada decisão, ou mesmo acompanhar nuances do multiverso e do mundo de Corel, tudo isso fica mais complicado se você não estiver confortável lendo em inglês.
Numa obra em que a apresentação, a história e o tom fazem tanta diferença, essa ausência de localização torna o jogo menos acolhedor do que poderia.
Vale a pena?
Fading Echo é um jogo marcado por contrastes. Tem carisma, estilo e ideias mecânicas muito boas, sobretudo em torno da água e das interações com outros elementos. Traz uma protagonista interessante, uma ambientação punk desértica bem trabalhada e uma narrativa que flerta com quadrinhos e multiversos de maneira honesta e curiosa.
Ao mesmo tempo, falha em pontos que pesam bastante na hora de avaliar a experiência como um todo. O combate não transmite o impacto que deveria, o loop de fases acaba se repetindo com clareza demais, a ausência de orientação mais amigável torna a exploração mais cansativa do que necessária e a falta de legendas em português limita o alcance da história.
Para quem curte experiências menos convencionais, valoriza identidade visual e gosta de jogos que brincam com forma e sistema, Fading Echo merece ser considerado. Desde que você esteja preparado para conviver com um combate mais “morno” e um ritmo que nem sempre ajuda.
Vale a pena, sim, especialmente se o que te atrai é originalidade mais do que polimento total. Mas é aquele caso em que você entra sabendo que vai encontrar um jogo interessante, porém imperfeito.
Agradecemos ao pessoal da CriticalLeap pelo envio do código que viabilizou essa review.






