Review: Lunarium une ação exigente e uma dupla carismática em um dos indies mais bonitos do gênero

Lunarium é um action RPG isométrico com elementos de soulslike que aposta em combate técnico, arte desenhada à mão e uma relação central muito bem construída.

A tranquilidade de Starfall Village dura pouco. O pequeno vilarejo onde Ave cresceu é invadido por criaturas que parecem desafiar qualquer lógica, como se tivessem saído de um pesadelo que se recusou a terminar ao amanhecer. Ainda em treinamento para se tornar cavaleira, ela tenta proteger sua casa, mas não consegue vencer o primeiro grande encontro com essas ameaças. É então que Lune, uma figura misteriosa conhecida como Starfarer, impede que sua história termine ali.

Essa é a porta de entrada para Lunarium, um action RPG isométrico que combina exploração, combates difíceis e uma narrativa fortemente apoiada na relação entre suas duas protagonistas. O jogo tem raízes claras no estilo soulslike, mas não se limita a copiar seus elementos mais conhecidos. A dificuldade, os confrontos contra chefes e a importância de aprender padrões estão presentes, mas o foco da aventura está na parceria entre Ave e Lune, tanto no roteiro quanto na forma como o jogador enfrenta cada batalha.

O resultado é uma experiência muito bonita, em mais de um sentido. A arte chama atenção imediatamente, a trilha sonora sustenta bem a atmosfera e o combate possui boas ideias. Nem tudo flui com a mesma leveza, especialmente no início, quando a movimentação de Ave pode parecer pesada demais. Ainda assim, Lunarium constrói uma jornada envolvente, com desafios que recompensam persistência e personagens que fazem valer o tempo investido.

Uma história movida por confiança

A relação entre Ave e Lune é o ponto mais forte de Lunarium. Elas começam a viagem sem uma confiança estabelecida, unidas por uma situação extrema e por uma ameaça que nenhuma das duas entende completamente. A partir daí, o jogo acompanha como esse vínculo se desenvolve durante a travessia de um mundo cada vez mais perigoso.

Ave não é apresentada como uma heroína pronta para salvar tudo ao redor. Ela está aprendendo, comete erros e precisa lidar com limites que aparecem tanto nas batalhas quanto nos momentos mais íntimos da história. Lune, por sua vez, carrega uma aura de mistério, mas não fica presa ao papel de guia enigmática que só aparece para explicar o próximo objetivo. Sua presença interfere diretamente no jogo e também ajuda a dar peso emocional à narrativa.

As cenas seguem uma linguagem próxima de visual novels, com ilustrações expressivas, diálogos e anotações escritas pela própria Ave. Os diários ajudam a mostrar a perspectiva da personagem sem depender apenas de longas explicações. É uma solução simples, mas eficaz, porque dá personalidade à protagonista e cria uma proximidade maior com suas descobertas e inseguranças.

A localização em inglês transmite bem as emoções principais, embora o jogo ainda receba atualizações voltadas a melhorar essa apresentação. Mesmo assim, a história já consegue comunicar o que precisa graças ao bom uso de imagens, expressões e música.

Duas personagens, um único ritmo de combate

Lunarium exige atenção. A base do sistema de luta está em atacar, desviar e aparar golpes no momento correto. Não basta avançar apertando botões e confiar que a espada de Ave resolverá tudo. Os inimigos têm padrões, aberturas e ataques que precisam ser entendidos. Chefes, principalmente, cobram concentração e paciência.

A defesa perfeita é uma peça importante desse quebra cabeça. Desviar e aparar com precisão aumenta a barra de atordoamento dos inimigos. Quando ela chega ao limite, Lune pode usar um golpe especial que deixa o adversário vulnerável. Esse é o momento de Ave assumir a ofensiva e causar dano com mais segurança.

A dinâmica da dupla não fica apenas na história. Lune oferece cura em quantidade limitada, pode atacar à distância com flechas e participa ativamente da criação de oportunidades em combate. Isso evita que ela pareça uma acompanhante decorativa. Cada luta envolve pensar no posicionamento de Ave, observar os ataques inimigos e decidir quando vale gastar os recursos de Lune.

É um sistema que recompensa entendimento. Os confrontos difíceis podem causar frustração nas primeiras tentativas, mas existe um prazer genuíno em reconhecer o padrão de um chefe, executar uma defesa no momento certo e finalmente superar um obstáculo que antes parecia impossível. Lunarium não transforma todo encontro em uma parede de dificuldade, mas deixa claro que vencer exige adaptação.

Quem prefere aproveitar a narrativa sem enfrentar tantos bloqueios pode recorrer ao Modo História, disponível nas configurações. A inclusão é acertada porque não retira a opção de desafio para quem busca a experiência tradicional, mas torna a jornada mais acessível para quem tem mais interesse na trama, no mundo e nas personagens.

Um mundo que se revela sem perder o senso de ameaça

A exploração é outro bom elemento de Lunarium. O jogo conduz Ave e Lune por áreas com identidade própria, evitando que todos os lugares pareçam apenas variações de corredores sombrios. Há regiões que brincam com ciclos de dia e noite, trechos que exigem atravessar territórios perigosos entre um ponto seguro e outro, além de cenários que parecem cada vez mais distantes da lógica do mundo comum.

Esse cuidado ajuda a manter a viagem interessante. O jogador não está apenas andando de uma arena até a próxima luta. Cada zona traz uma ideia específica, seja em sua mecânica, seja no clima visual. Os caminhos alternativos também foram organizados de forma inteligente. Mesmo quando a exploração leva para desvios, muitos deles acabam se conectando novamente a áreas seguras, o que reduz a sensação de que o jogo quer punir a curiosidade.

A estrutura dos mapas merece crédito justamente por equilibrar liberdade e orientação. Lunarium oferece espaço para procurar caminhos secundários, mas não transforma a navegação em um exercício cansativo de tentativa e erro. É uma qualidade importante em um jogo que já pede bastante atenção nos combates.

O peso de Ave demora a desaparecer

A maior dificuldade de adaptação está na movimentação da protagonista. Ave parece lenta, sobretudo no início da aventura e antes de receber melhorias de atributos. Há momentos em que ela transmite a sensação de estar se movendo com mais resistência do que o cenário exige, algo que pode atrapalhar especialmente quem chega esperando respostas muito rápidas de um action RPG.

Essa lentidão não desaparece completamente, mas se torna menos incômoda conforme o jogador entende o ritmo do combate e passa a se concentrar mais em desviar, aparar e escolher bem os momentos de ataque. Ainda assim, é um ponto que poderia receber mais polimento. Em um jogo onde posicionamento e reflexos são tão importantes, uma movimentação inicial mais ágil deixaria as primeiras horas menos travadas.

A boa notícia é que os controles funcionam bem no geral. A interface é clara, as informações principais não ficam escondidas e a experiência no Steam Deck, utilizando controle, é bastante competente. Para um jogo que pode exigir muitas tentativas em certas batalhas, ter uma navegação simples pelos menus e comandos confiáveis faz diferença.

Arte que sustenta cada momento

Lunarium é visualmente marcante. Seus gráficos em 2D desenhados à mão criam uma identidade própria, com cenários que transitam entre o belo, o melancólico e o assustador. As criaturas têm um aspecto inquietante, os ambientes carregam uma atmosfera de fantasia sombria e os designs de Ave e Lune funcionam muito bem dentro desse universo.

A direção de arte não existe apenas para deixar tudo bonito. Ela reforça a sensação de que Starfall Village e os territórios ao redor estão sendo consumidos por algo incompreensível. As áreas exploradas têm presença, e isso ajuda a tornar a aventura memorável mesmo fora dos grandes confrontos.

A trilha sonora acompanha esse cuidado. As músicas têm um tom emotivo e misterioso, combinando com a melancolia da história e com a ameaça constante que paira sobre as protagonistas. Nos momentos de combate, ela ajuda a aumentar a tensão sem roubar atenção da ação. Nas cenas narrativas, sustenta o lado mais íntimo da relação entre Ave e Lune.

Vale a pena?

Lunarium acerta ao fazer de sua dupla principal mais do que uma escolha de roteiro. Ave e Lune dividem a aventura, os riscos e o próprio sistema de combate. Essa integração dá ao jogo uma personalidade forte, porque toda vitória nasce do uso conjunto das habilidades das duas.

O combate é exigente, mas bem estruturado. Aparar golpes, criar atordoamentos e aproveitar as aberturas dos inimigos traz uma sensação de progresso real. O Modo História também garante que pessoas menos interessadas na dificuldade possam acompanhar a narrativa sem transformar cada chefe em uma barreira intransponível.

A movimentação inicial de Ave pode incomodar, e alguns confrontos exigem mais insistência do que muitos jogadores estarão dispostos a oferecer. Apesar disso, Lunarium compensa esses tropeços com mapas bem pensados, arte impressionante, boa trilha sonora e uma história que encontra força na amizade construída entre suas protagonistas.

É uma aventura que não depende apenas de ser difícil para prender a atenção. Ela sabe criar tensão, mas também sabe quando desacelerar e deixar seus personagens respirarem. No cenário indie de action RPGs, Lunarium merece ser visto com atenção.

7Bom
Veredito

Bom

Lunarium é um action RPG isométrico com elementos de soulslike que aposta em combate técnico, arte desenhada à mão e uma relação central muito bem construída.

  • Modo História amplia a acessibilidade sem descaracterizar o jogo
  • Trilha sonora combina muito bem com a fantasia sombria
  • Visual em 2D desenhado à mão é bonito e cheio de personalidade
  • O jogo não tem localização em PTBR
  • Ave parece lenta demais nas primeiras horas
  • A importância do parry pode ser desafiadora
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