Existem jogos que parecem ter sido feitos para lembrar por que certos gêneros fizeram tanto sucesso. Duskfade entra nessa categoria. Ele não tenta esconder suas inspirações: a aventura de Zirian tem cenários coloridos, saltos milimétricos, colecionáveis espalhados por todos os cantos, armas estilizadas e uma progressão que entrega novas ferramentas a cada região. Só que a Weird Beluga não se limita a reproduzir uma fórmula conhecida. O estúdio usa essa estrutura para construir uma experiência própria, ambientada em um universo clockpunk e guiada por uma história que surpreende pela delicadeza.
A proposta de ser uma homenagem aos antigos plataformas 3D de ação poderia soar como mais uma promessa nostálgica. Afinal, é fácil citar os grandes nomes de uma era e bem mais difícil recuperar o ritmo, a leveza e o prazer de movimentação que eles tinham. Duskfade, porém, entende o ponto principal: um bom jogo de plataforma precisa fazer o jogador querer se mover pelo cenário mesmo quando não há um objetivo urgente na tela.

Correr, pular, deslizar, atacar no ar e alcançar uma plataforma distante é gostoso. Os comandos respondem com precisão, as habilidades surgem no momento certo e cada área apresenta alguma ideia nova antes que a anterior fique cansativa. Há problemas, especialmente no combate e na busca por colecionáveis, mas eles não impedem que Duskfade se torne uma das aventuras mais interessantes do gênero.
Uma jornada que cresce junto com o protagonista
Duskfade acompanha Zirian e sua irmã, Allira. Os dois acabam separados por um acontecimento que muda completamente suas vidas e obriga Zirian a partir em uma viagem que vai muito além de encontrar a irmã novamente. A aventura se transforma, aos poucos, em uma história sobre amadurecimento, mudanças e a dificuldade de lidar com sentimentos que não desaparecem só porque alguém prefere ignorá los.
A primeira impressão pode enganar. O visual tem cores vivas, personagens expressivos e diálogos leves, então é fácil imaginar que o jogo se contentará com uma trama infantil e previsível. Não é o caso. O texto aborda temas mais pesados, mas faz isso sem abandonar o tom acessível de uma fábula. Há humor, momentos bobos e situações descontraídas, mas também há espaço para conversas que exigem mais atenção.
A relação entre os irmãos é a base da narrativa. Zirian muda durante a campanha, não apenas porque acumula habilidades novas, mas porque passa a enxergar o mundo e as pessoas à sua volta de outra maneira. Esse desenvolvimento é construído com calma e dá mais valor aos acontecimentos da reta final.
O jogo não tenta parecer profundo o tempo todo. Essa é uma de suas melhores qualidades. Duskfade sabe quando fazer graça e quando abaixar o tom, sem tratar o público mais jovem como incapaz de entender conflitos mais sérios. A história se apresenta como um livro ilustrado em movimento, com uma atmosfera de fantasia que combina muito bem com o universo criado pela Weird Beluga.
Fases que nunca ficam paradas no mesmo lugar
A variedade é a maior demonstração da ambição de Duskfade. A campanha leva cerca de nove a dez horas para ser concluída, mas o jogo aproveita bem esse tempo. Em vez de repetir uma mesma ideia até esgotá la, ele introduz inimigos, obstáculos, habilidades e biomas em um ritmo muito bom.
Cada região tem identidade própria. As fases não existem apenas para trocar a cor do cenário ou apresentar novos adversários. Elas mudam a maneira como Zirian se movimenta e pedem que o jogador use suas ferramentas de formas diferentes. O resultado é uma campanha que mantém a curiosidade acesa, porque sempre parece haver alguma mecânica nova esperando logo adiante.
As habilidades seguem conceitos conhecidos do gênero, mas são bem aplicadas. Zirian desbloqueia asas para planar, um equipamento semelhante a um gancho para alcançar pontos elevados e um escudo capaz de deslizar por trilhos. Nada disso tenta reinventar o jogo de plataforma, e nem precisa. O mérito está em como cada poder se encaixa no mundo clockpunk e passa a ser usado em desafios cada vez mais elaborados.
O ritmo das aquisições é muito bem calculado. Assim que uma habilidade nova chega, ela começa a aparecer em trechos de exploração e plataforma. Pouco depois, o jogo cobra domínio daquele recurso em uma luta contra chefe. Essa ligação entre exploração, movimentação e combate faz com que cada poder pareça importante de verdade, não apenas mais um item acumulado em um menu.

Os chefes aproveitam especialmente bem esse design. As batalhas não servem apenas como uma prova de dano ou resistência. Elas costumam usar a habilidade recém adquirida como parte essencial do confronto. Quando Zirian ganha a capacidade de planar, por exemplo, o jogo não demora a criar uma luta que exige uso constante das asas. Isso faz as batalhas parecerem extensões naturais da fase, e não interrupções isoladas.
Movimentação é o grande espetáculo
Duskfade acerta onde um jogo de plataforma não pode falhar: no controle. Zirian responde muito bem a saltos, esquivas, investidas e movimentos aéreos. Há precisão suficiente para enfrentar trechos mais difíceis sem a sensação de que uma queda aconteceu por culpa do jogo.
Essa qualidade permite que as fases proponham desafios mais exigentes. Alguns segmentos de plataforma pedem boa leitura de distância, reflexo e domínio das habilidades. Eles não são simples corredores entre uma luta e outra. Há momentos em que o jogador precisa combinar dash, pulo, ataque aéreo e planagem para alcançar caminhos alternativos ou baús escondidos.
A mobilidade também abre espaço para soluções inesperadas. Certos tesouros aparecem em locais que, teoricamente, exigiriam uma habilidade obtida mais tarde. Ainda assim, a precisão dos movimentos deixa margem para jogadores mais criativos tentarem sequências avançadas e chegarem a esses pontos antes da hora. É o tipo de liberdade que valoriza quem aprende o sistema mais a fundo.
O desafio foi bem dosado. Há trechos que exigem atenção e chefes capazes de pressionar mesmo na dificuldade normal, mas a sensação predominante é de superação, não de punição. Duskfade pede habilidade, mas não parece interessado em afastar quem ainda está aprendendo.
Combate não acompanha o mesmo ritmo da plataforma
A ação tem bons fundamentos, mas fica abaixo do restante da experiência. Zirian usa uma espada para ataques leves e um pêndulo para golpes pesados. Além disso, há habilidades ativas como mina terrestre, disparo semelhante a uma espingarda, barreira explosiva e um feitiço que lança projéteis guiados.
No começo, esse conjunto parece suficiente. Há opções para lidar com grupos, inimigos mais resistentes e situações em que vale manter distância. O problema aparece depois de algumas horas, quando fica claro que a espada continua sendo a principal arma durante a maior parte das lutas.

Os golpes básicos não oferecem variedade de combos suficiente para manter o combate tão interessante quanto a movimentação. As habilidades especiais ajudam a quebrar um pouco essa repetição, mas não resolvem totalmente a questão. Faria diferença ter mais armas principais ou sequências de ataque mais complexas, capazes de dar ao jogador novas formas de abordar os confrontos.
As lutas não são ruins. Elas têm impacto, inimigos variados e chefes bem construídos. Só não chegam ao mesmo nível de criatividade das fases. Em um jogo tão ágil e com controles tão precisos, o combate poderia aproveitar melhor a capacidade de Zirian de se mover pelo espaço.
Colecionar é divertido até a hora de voltar atrás
Duskfade entende que itens escondidos fazem parte do charme de um plataforma. Há barras que alteram a aparência da espada principal, felinos que podem ser resgatados para liberar visuais de personagens e moedas usadas para comprar figurinhas e cartas de um álbum colecionável. São recompensas que conversam com os temas e o estilo do jogo, além de darem um motivo extra para explorar cada mapa.
A ideia é boa, mas a execução pesa quando o objetivo é completar tudo. Muitos colecionáveis só podem ser alcançados depois que Zirian recebe habilidades desbloqueadas bem mais tarde na campanha. Isso obriga o jogador a revisitar áreas antigas, algo normal para o gênero, mas Duskfade não oferece ferramentas suficientes para tornar esse retorno mais confortável.
A ausência de mapa e de algum recurso para localizar itens torna a busca bem cansativa. Sem uma memória espacial muito boa, a tarefa vira quase uma reexploração completa de cada fase, procurando por caminhos que talvez tenham sido vistos horas atrás. O jogo adiciona, mais perto do fim, uma habilidade de viagem rápida para o ponto de controle mais próximo, mas isso ajuda apenas parcialmente.
É um daqueles casos em que o conteúdo opcional corre o risco de deixar de ser uma recompensa e virar trabalho. Quem pretende apenas terminar a campanha provavelmente não vai sofrer com isso. Já quem gosta de buscar 100% pode se frustrar com a quantidade de idas e vindas.
Um projeto pequeno com aparência e ideias maiores
A Weird Beluga é uma equipe pequena, com algo entre dois e dez integrantes segundo as informações públicas do estúdio. Diante disso, o resultado impressiona ainda mais. Duskfade tem variedade de biomas, bons chefes, habilidades numerosas, inimigos diferentes, narrativa bem trabalhada e um nível de polimento que muitos projetos maiores não conseguem alcançar.
Isso não significa que o jogo pareça uma produção gigantesca. Sua força está em outra parte. Ele sabe exatamente o que quer entregar e concentra esforços nos elementos que sustentam sua proposta. As fases são bem desenhadas, a movimentação é excelente e a história acompanha o tom do visual em vez de parecer uma camada adicionada às pressas.
Duskfade não vive apenas de nostalgia. Ele reconhece o valor de uma época dos jogos de plataforma, mas encontra um jeito de falar com o presente. Há uma vontade clara de criar algo caloroso, desafiador e divertido, sem cinismo e sem excesso de sistemas que não levam a lugar nenhum.
Vale a pena?
Duskfade é uma ótima recomendação para quem sente falta de jogos de ação e plataforma em 3D guiados por criatividade, movimento preciso e fases cheias de pequenas descobertas. A campanha tem um ritmo excelente, apresenta habilidades de forma natural e sabe aproveitar seus recursos em exploração, desafios de plataforma e batalhas contra chefes.
A história é outra surpresa. Mesmo com aparência de conto infantil, ela trata de temas mais densos com cuidado e constrói bem a relação entre Zirian e Allira. O universo clockpunk, os cenários vibrantes e a direção artística fazem o conjunto ter personalidade.
O combate poderia ser mais variado, especialmente nos ataques básicos de espada, e a caça aos colecionáveis se torna cansativa por falta de mapa ou ferramenta de rastreamento. Ainda assim, esses problemas não diminuem muito o brilho de uma aventura que acerta no fundamental: jogar Duskfade é divertido do começo ao fim.






